Bem-estar: responsabilidade e conhecimento

Há mais de um século acreditou-se que a qualidade de vida e o bem-estar da humanidade dependiam essencialmente do acesso aos produtos industrializados (...) Artigo do Dr. Sohaku Bastos à sociedade brasileira, publicado no Jornal Salute News.

EDUCAÇÃO: PARTE PRIMEIRA DA SAÚDE

Há mais de um século acreditou-se que a qualidade de vida e o bem-estar da humanidade dependiam essencialmente do acesso aos produtos industrializados. Da mesma forma, esperava-se que com a evolução da industrialização química e farmacêutica, paralelamente aos progressos da tecnologia biomédica, erradicar-se-iam todos os tipos de moléstias.

Em verdade, o progresso dos tratamentos medicamentosos e cirúrgicos reduziu a mortalidade, o que se refletiu nas estatísticas globais. Com isso, procurou-se demonstrar que esses procedimentos alteravam significativamente a taxa de sobrevida dos pacientes. Todavia, o uso indiscriminado de medicamentos sintéticos e o emprego, algumas vezes desnecessário, de intervenções cirúrgicas, impingiram à sociedade uma “nova epidemia” de doenças provocadas, paradoxalmente, pelo sistema convencional de saúde: a iatrogenia, do grego: iatrós (‘remédio’) e gênesis (‘geração’, ‘causa’).

A doença iatrogênica transcende o simples erro profissional. Abrange, em sentido mais amplo, todas as condições desfavoráveis, entre as quais: a cultura de procedimentos terapêuticos perniciosos e a desinformação, ou melhor, a cultura da automedicação.

Na realidade, a qualidade da saúde da população carente mundial não melhorou, apesar do crescimento da produção de fármacos e o fomento nos investimentos em tratamentos de diversas doenças. Por maior evolução técnica que se tenha obtido nesse último século é evidente que a humanidade não está mais feliz, não se conseguiu promover o bem-estar social como um todo, tampouco se obteve o controle preventivo das enfermidades de forma mais abrangente.

A importância do fator cultural nos problemas de saúde passa pelo acesso à educação, sem a qual não se pode ter acesso às informações fundamentais ao exercício da cidadania. Passa, também, pelas discriminações sociais de toda ordem e, sobretudo, pelo domínio sócio-econômico de grupos nacionais ou estrangeiros interessados exclusivamente em lucros, sem uma verdadeira preocupação social.

Em decisão, publicada nos jornais de grande circulação, a Organização Mundial da Saúde – OMS – em Genebra, mais uma vez, reporta-se à necessidade de se criar estratégias mundiais no sentido de ajudar países a regulamentar as terapias não-convencionais e não alopáticas. No texto, ressaltam-se os métodos de eficácia comprovada quando empregados de forma adequada, dentre os quais a homeopatia, a acupuntura, a hipnose, técnicas de relaxamento, tais como yoga, tai-chi, assim como, medicamentos à base de plantas, minerais ou animais.

Não é a primeira vez que esse órgão máximo de promoção mundial de saúde se pronuncia a respeito. Em 1962, durante a Primeira Conferência Internacional sobre Atendimento Primário em Saúde, a OMS já alertava os países do chamado “terceiro mundo” sobre a necessidade de se resgatar, científica e socialmente, as terapias tradicionais de países e povos para atender a mais da metade da população do mundo que não tinha sequer acesso aos procedimentos básicos de saúde. Ratificando esta política, em 1978, na cidade de Alma-Ata – capital do Cazaquistão Soviético – sob o patrocínio conjunto da OMS e da UNICEF - foram enfatizadas as referidas condutas no atendimento primário de saúde, as quais poderiam ser mais bem definidas e desenvolvidas como principais ferramentas para se alcançar o escopo: “Saúde para Todos”, o qual, também, já havia sido adotado na Assembléia Mundial de Saúde, em 1977.

Países como o Japão, os Estados Unidos, a China, a Índia, a Coréia, a Inglaterra, entre outros, já incluíram as terapias naturais e tradicionais em seus sistemas de saúde. Ressalta-se o Sri Lanka, cujo governo criou o Ministério de Medicinas Indígenas para preservar e promover as práticas das terapias tradicionais, principalmente, a milenar Terapia Ayurvédica que atende mais da metade da população do país em hospitais públicos.

No entanto, há algumas décadas, em nosso país, havia um certo consenso dentre a comunidade científica de que as plantas medicinais, as doses homeopáticas e as agulhas de acupuntura não ocupariam mais que uma nota de pé de página na história das Ciências da Saúde. Esta foi, sem dúvida, uma suposição prematura, visto que os países do “ primeiro mundo” incorporaram definitivamente essas práticas. promovendo-as cientificamente e fomentando-as socialmente.

Nesse sentido, os países em desenvolvimento estão em descompasso com o que ocorre nas sociedades mais industrializadas e ricas, nas quais as pesquisas científicas em terapias naturais são consideradas da maior importância para o futuro. São os gigantescos conglomerados da indústria farmacêutica que estão desenvolvendo grande parte das pesquisas tecnológicas nessas áreas, sobretudo com as plantas medicinais e, ainda mais, patenteando-as. Para os países em desenvolvimento, surge a questão de termos, no futuro, que importar dos países desenvolvidos nossas próprias plantas nativas e seus extratos vegetais, onerando a balança comercial. Tendo perdido o primeiro round da Revolução Industrial, será que nós, do chamado “terceiro mundo”, também vamos perder a batalha novamente e, desta vez, em nosso próprio terreno?

Mais surpreendente é quando nos deparamos com reportagens que enfatizam pronunciamentos de “autoridades” em plantas medicinais, as quais depreciam o emprego das mesmas sob a alegação de que fazem mais mal do que bem, estigmatizando-as. É óbvio que o uso de qualquer medicamento deva ser cercado de cuidados que vão da prescrição à manipulação por quem de direito.

É sobejamente conhecido pelas autoridades científicas que as terapias naturais são de custo acessível, de simples implementação e de baixa iatrogenicidade. Todavia, frise-se por necessário que, não obstante o valor social dessas práticas ser insofismável, é de bom alvitre ressaltar que elas não pretendem substituir as condutas terapêuticas do sistema assistencial vigente. O objetivo primordial da integração das políticas mundiais de saúde com as terapias naturais é que elas venham a ser valores agregados à conjuntura dos procedimentos convencionais de saúde, humanizando, destarte, o atendimento ao cidadão.

A prestigiada Universidade de Harvard, no que tange à educação na área das terapias não convencionais, desde 1995 vem promovendo cursos e seminários anuais intitulados “Alternative Medicine: implications for clinical practice“, direcionados a profissionais da área de saúde. Aliás, nos Estados Unidos existem em torno de 150 instituições de ensino superior especializadas que promovem cursos de graduação e pós-graduação (lato sensu) em áreas como Naturopatia, Acupuntura, Quiropraxia, etc, algumas delas mantendo programas acadêmicos de mestrado e doutorado (stricto sensu) nessas áreas do saber.

A Revista Veja, em manchete de capa com o título – “Promessa de Milagre – Riscos das Terapias Alternativas”, abordou o tema com parcialidade. Não obstante o oportuno alerta em relação à especulação panacéica sobre o assunto omitiu, entretanto, o aspecto mais relevante em qualquer ato profissional: a Educação.

A Educação é parte primeira da saúde e de qualquer profissão ou área do saber. Através dela é possível não apenas fomentar o aprendizado, mas também a pesquisa. Em sua falta, o caos e o engodo.

Sensível a esta realidade educacional, o Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, órgão normativo do Governo do Estado na área de Educação, criou a Deliberação nº 270/01, a qual estabelece as Diretrizes Curriculares Complementares nas áreas de Acupuntura, Shiatsuterapia e Terapias Naturais, compreendendo nesta, Massagem, Fitoterapia, Quiropraxia, Osteopatia, Reflexoterapia, Iogaterapia e Terapia Ayurvédica, consoante à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96.

Para reforçar esta política, foi sancionada a lei estadual nº 3.181 de 27 de janeiro de 1999, a qual criou o serviço de acupuntura nas unidades hospitalares do Estado do Rio de Janeiro, porém, a regulamentação da mesma só ocorreu em 05 de julho de 2002. Com isso, o maior prejudicado com essa procrastinação foi o cidadão carente que não pôde acessar tal serviço de saúde sem ônus nos últimos três anos.

Desta forma, evidencia-se que sem a promoção do binômio Ensino-Pesquisa é impossível a viabilização de qualquer exercício profissional, mormente na área da saúde. Quanto às pesquisas científicas, podemos nos reportar com segurança a centros de pesquisas de excelência e às próprias Diretrizes da Organização Mundial da Saúde. Quanto à Educação, devemos estar atentos às regulamentações educacionais já estabelecidas em países desenvolvidos, neste campo do saber. Quanto ao exercício profissional, ou seja, a prática regular dessas terapias é matéria reservada à lei. Em sua falta, as decisões e normas estabelecidas por corporações profissionais da saúde são importantes referenciais a serem observados pela sociedade.

Considerando a existência de hiatos conjunturais de desinformação e de algumas condutas terapêuticas abusivas, vale dizer, inconsistentes no que concerne à prática das “Terapias Alternativas”, compreende-se, por conseguinte, que o verdadeiro vilão deste imbróglio é a ignorância, associada ao desconhecimento injustificável ou até mesmo conveniente de alguns segmentos da sociedade. Assim sendo, tal "desmotivação" quase proposital não leva, em absoluto, ao fomento da educação regular em áreas de demandas laborais latentes que jamais deveriam ser sufocadas, sob pena de termos que pagar um alto custo social no futuro, levando as novas gerações e aquelas que ainda estão por vir a nunca nos perdoar por omissão.

O Sistema Educacional ABACO/CBA que eu tive a honra de construir e a felicidade de trabalhar fundamenta-se no espírito holístico-educacional cujo objetivo é a transformação humana para se viver em um mundo melhor.

Estou convencido de que a verdadeira educação deve albergar não apenas a instrução, sobretudo a afetividade e a ética. Não é mais aceitável ignorar a realidade da vida humana apartada da práxis ecomoral-comportamental-transdisciplinar que permeia todas as latitudes existenciais.

O ser humano passou milhares de anos tentando descobrir a verdade da vida, confiando em seus sentidos e vislumbrou o conhecimento. Esqueceu-se, porem, de sua verdadeira realidade existencial: o saber inato e original.

Quando conseguirmos integrar conhecimento e sabedoria, ciência e tradição, pensamento ordinário e consciência, possivelmente estaremos mais próximos da saúde, da paz e da verdadeira evolução humana.

Dr. SOHAKU BASTOS
drsohaku@abacocba.org.br
Fundador da ABACO-CBA e da SOHAKU-IN FOUNDATION
Cônsul-Geral a.h. do Sri-Lanka para o Estado do Rio de Janeiro
Artigo também disponível neste endereço (clique aqui).

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